Tecnologia e humanização José Goldenberg*Tecnologia e Humanização
Por José Goldenberg*

É notório o contínuo progresso dos meios diagnósticos e terapêuticos na área da medicina decorrente do desenvolvimento científico e tecnológico. Por outro lado, assistimos muitas vezes a fragmentação do paciente, ou seja, do ser humano, de acordo com as várias especialidades médicas, aliás, hoje muito em voga. Ele deixa de ser analisado de uma forma holística e integrada.

Cada indivíduo que procura um médico é único e a singularidade de seu caso deve ser analisada cuidadosamente. A heterogeneidade psíquica dos pacientes tem de ser valorizada, pois muitas vezes tem importante participação no desencadeamento ou agravamento das enfermidades, podendo influir na sua evolução e nos resultados do tratamento. O paciente sempre tem que ser avaliado tendo em mente múltiplos aspectos, que incluem a prevenção, o diagnóstico e o tratamento com sua reabilitação e reintegração ao meio social. Não se pode, entretanto, ignorar os impactos sociais e financeiros dos custos médicos crescentes para o paciente, família, empresa e a sociedade.

Sem qualquer dúvida, os avanços da Medicina trouxeram inquestionáveis benefícios para a humanidade, ultrapassando todas as expectativas de nossos antecessores. Infelizmente, porém, apesar de todas as conquistas científicas, vários fatores têm se interposto na relação entre o médico e o paciente. Um dos principais problemas são as limitações impostas por algumas fontes pagadoras que, ao remunerar mal o médico, obriga-o a atender muitos pacientes em tempo limitado, para obter um rendimento mínimo que o permita levar uma vida digna. Por outro lado, o paciente freqüentemente escolhe o especialista nas listas de credenciados de seu convênio, mal conhecendo o seu nome, não levando em consideração sua capacitação técnica e experiência, mas a proximidade de seu consultório do local de trabalho ou de sua casa. É claro que essa situação tende a provocar uma desarmonia na relação médico-paciente, que muitas vezes resulta em ruptura da confiança, elemento essencial nas relações humanas.

O médico em diversos casos passa a cuidar somente da doença e não do doente e, conseqüentemente, o ato médico é substituído pela máquina que se interpõe entre ambos. Esse caminho é inaceitável e deve ser rapidamente revertido.

O profissional deve realizar em todos os pacientes o ato médico regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina. Precisa fazer a anamnese completa, conhecer os antecedentes pessoais e familiares, incluindo o psicológico, em seguida fazer um interrogatório específico a respeito dos vários órgãos e o exame físico completo – e o específico quando necessário. As informações obtidas com este levantamento são básicas para feitura do raciocínio clínico, que obrigatoriamente deverá ser explicado ao paciente, permitindo a realização de 70 a 80% dos diagnósticos, além de se constituírem no início do planejamento terapêutico. O próximo passo é a solicitação criteriosa dos exames subsidiários. A tecnologia tem presença essencial na Medicina moderna, devendo, entretanto, ser indicada zelosa e criteriosamente.

Após a adoção de todas as medidas necessárias, a decisão final da conduta deve ser baseada nas melhores evidências científicas disponíveis e na experiência pessoal do médico. Ele deve atuar com toda a cautela procurando buscar sempre a melhor eficiência e efetividade possível, em benefício do paciente. Além disso, o médico tem que, obrigatoriamente, respeitar a vontade do paciente.

Em conclusão, o médico deve ser o ator principal no gerenciamento da saúde do paciente, transmitindo ao mesmo confiança e fornecendo assistência integral àquele que sofre.

*Goldenberg é clínico, reumatologista e professor livre docente da Universidade Federal de São Paulo/EPM