Conheça Prof. Dr. José Goldenberg – CRM: 13.696

A minha carreira como médico iniciou-se há 40 anos. Durante toda essa longa trajetória sempre dediquei atenção especial aos problemas da coluna vertebral. Neste período assisti a um fantástico avanço no diagnóstico e tratamento das doenças, algumas com perspectivas de cura. Isto se deve a tecnologia, que inclui a biologia molecular, a biogenética, à nanotecnologia entre outras. Em alguns paises já é uma realidade pacientes carregarem o seu próprio prontuário médico em um chip eletrônico ou armazenado na Web.

Infelizmente até 2008 os tratamentos da dor da coluna vertebral não evoluíram muito em relação às recomendações propostas em 1994 pela agência de políticas de cuidados de saúde e pesquisa do Departamento de Saúde do Governo Norte Americano. Não deixa de ser frustrante que quatorze anos após as referidas recomendações pouco foram as mudanças que efetivamente fizeram diferença no tratamento dos pacientes que padecem dessas dores.

Neste lapso de tempo, dezenas de bilhões de dólares americanos foram investidos, dúzias de novas técnicas cirúrgicas foram desenvolvidas, muitas com grande promoção na mídia e internet e centenas de estudos foram publicados. Entretanto, são poucas na literatura médica especializada as evidências científicas da eficácia e segurança dos pelo menos 200 tratamentos conhecidos, clínicos, cirúrgicos e alternativos.

O custo econômico dos cuidados com a coluna é crescente, porém fica uma questão fundamental a ser respondida. Deve se oferecer um novo tratamento antes que ele seja utilizado com suficiente evidência cientifica de sua eficácia, segurança e custo-efetividade, que o suporte? Poderia afirmar que muitos de nós médicos e pacientes temos a sensação de estarmos no interior de uma loja especializada em coluna vertebral, em que é oferecido um cardápio variado de opções sem que muitos tenham consciência daquilo que estão utilizando.

Obviamente é impossível conhecer todos os tratamentos disponíveis. Entretanto eles são propostos a seres humanos sem que haja em muito deles qualquer indicação e evidências científicas convincentes que suportem a sua utilização. Ainda em muitos casos, iludindo a boa fé dos sofredores que em desespero de causa os aceitam.

São ofertados, 60 produtos farmacêuticos, 152 técnicas de terapias manuais, terapias físicas, diferentes programas de exercícios ativos, quiropraxia e ostepatia . Temos ainda 35 modalidades de diferentes exercícios físicos passivos, terapias educacionais e psicológicas. Ainda infiltrações que incluem as epidurais , bloqueios de fasceta articular , pontos de gatilho, entre outros, não menos que 20. As cirurgias merecem um capitulo especial. Foram desenvolvidas 3 técnicas de cirurgias minimamente invasivas com suas variantes, e 11 outras que incluem laminectomias, artroplastias, estimulação cerebral, implantes, como próteses dinâmicas, discos artificiais, parafusos entre outras. Ainda terapias complementares e alternativas desde a acupuntura até suplementos a base de ervas e vitaminas.

Esta longa lista de 200 opções de tratamento desenvolvida nos últimos anos, obviamente não ofereceu mudanças substanciais no panorama dos cuidados ao paciente, a não ser um aumento dramático dos seus custos. Em 2005 o custo total do tratamento das doenças da coluna nos Estados Unidos foi da ordem de 100 a 200 bilhões de dólares americanos. No ano de 2007 apenas em custos diretos foi estimado em 90,6 bilhões de dólares americanos. Existem algumas explicações para este aumento brutal de custos, entre elas a tecnologia decorrente da microengenharia de implantes. Em 2003 o faturamento dos fabricantes de produtos ligados a implantes para a coluna foi da ordem de 2,5 bilhões de dólares americanos e em 2007, 6,1 bilhões de dólares.

Ainda salienta-se o grande número de profissionais de várias especialidades que atuam nessa área com diferentes formações que incluem médicos, psicólogos, fisioterapeutas, osteopatas, acupunturistas, professores de educação física. Ainda não podemos nos esquecer dos curiosos e charlatões.
Estamos vivendo nos dias atuais um paradoxo, o desafio entre a tecnologia sempre fascinante e os custos econômicos crescentes e insuportáveis. A saúde não tem preço, porém tem custos. Uma ou mais soluções têm que ser encontrada.

O que nós médicos podemos realizar, além do ato médico, a fim de equacionar este paradoxo em benefício do paciente, da sociedade e da classe dos profissionais de saúde? Será que estamos exercendo uma medicina inteligente?

Não tenho duvida que para superar este desafio, é importante utilizar indicadores que avaliem o nosso desempenho o que inclui resultados e qualidade e se possível comparar os nossos resultados com o dos outros. Ainda coletar dados, criar e publicar “guidelines”( manuais de orientação das melhores praticas médicas), compartilhando as informações e estimulando outros profissionais e aderir aos mesmos.

O homem tem duas qualidades que as outras espécies não possuem, ou seja, o livre arbítrio e a racionalidade. Estes atributos devem ser utilizados diligentemente com competência em benefício do ser humano o que implica em exercer uma medicina inteligente, racional com qualidade e custo-efetividade compatíveis. Estes indicadores de desempenho, resultados e qualidade com coleta de dados devem ser utilizados em favor dos pacientes e do médico, aprimorando cada vez mais o seu atendimento. Infelizmente em muitos casos não podemos provar que aquilo que exercemos realmente funciona e muitas vezes não são suficientemente transparentes.

Em conclusão, devemos lutar e procurar estar sempre atualizados com as novas tecnologias e o conhecimento científico utilizando os mesmos zelosamente a fim de oferecer ao paciente uma medicina fundamentada em evidencia cientificas associada a experiência do médico informando o mesmo com detalhe seus riscos e benefícios.